Sobre o chamado do PCBR e a necessidade de um debate estratégico da esquerda revolucionária para 2026
- Revolução Socialista
- 26 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Por Verónica O’Kelly da Direção de Revolução Socialista e da Liga Internacional Socialista
Diante do chamado público feito pelo PCBR às organizações revolucionárias para iniciar um debate programático com vistas às eleições de 2026, queremos afirmar, desde já, nossa disposição em abrir esse debate e, ao mesmo tempo, aportar algumas reflexões e opiniões políticas que consideramos fundamentais para que ele avance de maneira frutífera.

Um chamado correto e urgente
O PCBR escreve: “Gostaríamos, assim, de fazer um apelo e um chamado aos partidos e organizações revolucionárias para as eleições de 2026: comecemos agora um debate programático para construir essa alternativa! Sabemos que há diferenças entre nós, mas entendemos ser possível um programa bastante avançado para uma candidatura unificada.” Partimos desse mesmo entendimento: existem diferenças reais entre as organizações revolucionárias, mas isso não deve ser um obstáculo para iniciar um processo sério de diálogo, baseado em princípios comuns e na necessidade urgente de construir uma alternativa anticapitalista diante das massas.
O debate sobre como as organizações revolucionárias atuam no terreno eleitoral e/ou parlamentar deve partir de um princípio fundamental: a independência de classe. Trata-se de um debate que atravessa todas as tradições revolucionárias e que, a nosso ver, é essencialmente tático, mas que só pode ser corretamente colocado se estiver ancorado nesse princípio estratégico da independência política da classe trabalhadora. No recente III Congresso da LIS fizemos esse debate que está disponível em nosso site para quem quiser ler os documentos e resoluções votadas.
Falamos de um debate tático porque se refere à possibilidade — ou não — de utilizar o terreno eleitoral para apresentar o programa anticapitalista e o partido revolucionário às massas, em um espaço que é, em sua essência, burguês e alheio aos interesses da classe trabalhadora. Por isso mesmo, as táticas eleitorais podem ser diversas, desde que não ultrapassem os limites principistas.
Uma tática que parte de um princípio: a independência de classe
Não defendemos a participação da esquerda revolucionária em frentes eleitorais subordinadas a programas reformistas ou de conciliação de classes. No entanto, a realidade política não se reduz a uma divisão rígida entre reformismo clássico e organizações revolucionárias. Existem formações intermediárias, por vezes heterogêneas, com posições à esquerda, ainda que sem uma estratégia plenamente revolucionária. Esses casos não orientam nossa política nem constituem prioridade, mas tampouco podem ser descartados, porque fazem parte da realidade. Devem ser analisados caso a caso, sempre a partir de uma posição crítica, independente e de classe.
Independentemente das táticas eleitorais adotadas em cada país, há um ponto central que deve orientar qualquer decisão: a intervenção eleitoral, como toda intervenção política, deve servir para construir o partido revolucionário e impulsionar a luta de classes. Se as táticas forem oportunistas, elas nos subordinam ao programa das forças burguesas ou reformistas, enfraquecendo nossa estratégia. Da mesma forma, ignorar o potencial de uma tática eleitoral bem orientada significa abandonar esse terreno à influência do reformismo e da burguesia, enfraquecendo nossa própria estratégia.
Essa orientação precisa estar vinculada à luta de classes em cada país, pois a disputa eleitoral não ocorre à margem do combate político mais amplo contra os governos, seus planos, seus partidos e as burocracias do movimento operário e popular.
Iniciemos o caminho da unidade da esquerda revolucionária no Brasil
No Brasil, esse debate ganha uma centralidade ainda maior. Vivemos uma situação marcada, de um lado, pelo peso social e político da extrema direita, que disputa setores importantes das massas; e, de outro, pela simbiose retroalimentada do governo Lula e sua base que, em nome de "frear" essa extrema direita, convoca uma Frente Ampla, sustentada por um programa neoliberal e burguês, que não tem nada de progressivo do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora. Nesse cenário, o grande desafio é construir a unidade da esquerda revolucionária e iniciar um caminho de reorganização e reagrupamento político, que possa organizar todos aqueles setores que constantemente lutam e se enfrentam aos planos de ajuste e austeridade colocados tanto pelo governo Lula como pela extrema direita.
Nós, como corrente interna e sendo parte da fundação do PSOL, somos críticas e críticos do rumo que a direção majoritária vem impondo ao partido, subordinando-o cada vez mais ao projeto governista da conciliação de classes. Por isso, consideramos que a esquerda do PSOL deve dialogar seriamente com o chamado de unidade que o PCBR está impulsionando, como parte de um esforço mais amplo de construção de uma alternativa independente.
O mesmo vale para o PSTU, que respondeu ao chamado do PCBR com uma nota que, do nosso ponto de vista, é equivocada. Ao se negar a construir a unidade sob a diversidade, parte de uma compreensão incorreta de que as diferenças existentes na esquerda impediriam qualquer iniciativa comum. Ao contrário, entendemos que é justamente por existirem distintas opiniões e linhas políticas que é fundamental começar pelos acordos e pelos princípios — e, nesse ponto, ninguém está negando a independência de classe, principio que todos compartilhamos e defendemos.
Essa é, aliás, a prática que mantemos na Revolução Socialista. Mesmo sendo uma corrente interna do PSOL, nunca abrimos mão da independência política, silenciamos ou compactuamos com os erros da direção majoritária e fizemos nossas críticas de forma pública e consequente. Em 2022, por exemplo, no primeiro turno, chamamos voto no PSTU, rompendo com a orientação oficial do partido. Essa postura também dialoga com o que expressou o próprio PCBR ao defender o direito de filiação democrática de Jones Manoel ao PSOL para se apresentar como candidato em Pernambuco.
É evidente que ainda há muitos debates a amadurecer. Mas também é evidente que temos urgência em enfrentar o grande problema dos problemas: a construção de uma direção revolucionária capaz de apresentar uma alternativa real diante das massas. Os debates táticos, como o eleitoral, são importantes, mas não podem minimizar a questão central. O que precisamos discutir seriamente é se estamos em condições de ir além da tática eleitoral e iniciar, de forma consciente, um processo de reagrupamento revolucionário.
Esse é um caminho que já começamos a trilhar no plano internacional com a Liga Internacional Socialista, experiência que colocamos abertamente para ser conhecida e debatida e que se expressou na Resolução do III Congresso da LIS: Chamado ao reagrupamento revolucionário. Acreditamos que o chamado do PCBR pode ser um ponto de apoio importante nesse processo, desde que esteja orientado não apenas para 2026, mas para a tarefa estratégica de construir uma esquerda revolucionária à altura dos desafios do nosso tempo.









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