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Por Tainara e pelas 6 mulheres assassinadas por dia no Brasil: chega!

Image: Arquivo Internet.com
Image: Arquivo Internet.com

Por Verónica O’Kelly e Emanuelle Nascimento


Tainara, Allane, Layse, Nicolly, Taciana. E milhares de outras mulheres. Todas foram assassinadas pelo mesmo motivo: eram mulheres.


Em 2025, no Brasil, os dados oficiais indicam um feminicídio a cada seis horas. Mas sabemos que esses números são sempre subnotificados. A realidade é ainda mais brutal. O feminicídio já não é um “caso isolado”, nem uma sucessão de tragédias individuais: é uma epidemia social, sustentada por um sistema de dominação.


O patriarcado é a causa. O Estado é responsável.


A razão pela qual um homem mata uma mulher é simples: ele se sente dono dela. Isso não surge do nada, nem é fruto de um desvio individual ou de uma “doença”. Esse homem foi educado, desde que nasceu, para exercer poder, controle e posse sobre as mulheres. Ele é um produto social de um sistema estruturado de dominação e opressão patriarcal.


Sem esse sistema, as mulheres não realizariam trabalho de cuidado, produção e reprodução social de forma não remunerada; não receberiam salários menores; não estariam submetidas à violência cotidiana dentro e fora de casa. Por isso, é impossível tratar o patriarcado como um problema pessoal, cultural ou moral. Falamos de um sistema estrutural que, articulado ao capitalismo, baseado na exploração e na violência, precisa manter a desigualdade social por meio da opressão e do terror.


É evidente que nem todo homem se torna feminicida. Mas essa não é a questão central. O que precisamos discutir é como chegamos a essa situação. E, para isso, alguns pontos fundamentais precisam ser afirmados sem dúvidas:


  • Os homens detêm privilégios e poder material e simbólico sobre as mulheres, o que conforma uma personalidade patriarcal que se reproduz como se fosse “natural”;

  • O sistema capitalista se beneficia diretamente da desigualdade produzida pela opressão patriarcal e, por isso, não a combate  ao contrário, a fortalece;

  • O Estado capitalista e os governos que o administram são responsáveis por garantir, manter e reproduzir a violência e a opressão patriarcal.


Diante dessa realidade, o presidente Lula, fiel ao seu estilo, fez declarações genéricas de “indignação” frente ao que já é uma epidemia de feminicídios no país. Mas suas decisões caminham no sentido oposto à busca de soluções reais. O governo Lula (PT) utilizou menos de 15% das verbas disponíveis para o plano de combate ao feminicídio. Isso, por si só, já é gravíssimo.


Além disso, o chamado Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios é mais uma demonstração do peso do patriarcado dentro das instituições do Estado. Quase todas as medidas previstas se limitam a ações pedagógicas ou educativas. Não há políticas estruturais para a criação de casas-abrigo, nem medidas que fortaleçam concretamente a situação material das mulheres vítimas de violência. É, na prática, um plano de discursos sem ações.


Então, é possível combater a epidemia de feminicídios?


Sim, é possível. Mas não com discursos vazios, campanhas simbólicas ou indignação performática. Como nos alerta Silvia Federici, a violência contra as mulheres não é um desvio do sistema, mas um de seus mecanismos de sustentação. Combater o feminicídio exige enfrentar a base material que o produz: o patriarcado articulado ao capitalismo.


A violência de gênero não é um problema individual, nem um conflito privado. É estrutural. Como afirma Angela Davis, não existe justiça de gênero sem justiça social. Por isso, o enfrentamento aos feminicídios demanda medidas concretas, políticas públicas efetivas e uma aliança real entre mulheres e homens da classe trabalhadora. Essa não é uma luta exclusiva das mulheres: é uma batalha de toda a classe oprimida contra um sistema que lucra com a desigualdade, a precarização da vida e a naturalização da morte.


Defendemos, de forma imediata e inegociável:


  • a declaração de emergência nacional diante da violência de gênero, reconhecendo o feminicídio como uma crise social e política;

  • a abertura urgente de casas-abrigo em todos os municípios, com estrutura digna, segura e permanente, e não como política episódica;

  • a garantia de apoio financeiro e assessoramento jurídico integral para toda mulher que denuncie violência, rompendo o ciclo de dependência econômica que aprisiona;

  • e políticas efetivas de garantia de trabalho, com ações afirmativas, cotas e proteção laboral, porque, como lembra Sueli Carneiro, não há autonomia sem condições materiais de existência.


Nossa luta é integral porque nossa opressão também é. Lutamos contra a violência patriarcal, mas também contra o sistema que a organiza, a normaliza e a reproduz. Como ensinou Lélia Gonzalez, não há enfrentamento real ao machismo sem enfrentar o racismo e o capitalismo que estruturam a sociedade brasileira. Feminicídio, fome, precarização e exploração caminham juntos.


Por Tainara, Allane, Layse, Nicolly, Taciana e por todas as mulheres cujos nomes não viraram manchete.


Por aquelas que não puderam gritar.


Por aquelas que seguem ameaçadas.


Nenhuma a menos!


Porque nossas vidas não são descartáveis.


E porque não aceitaremos mais morrer em silêncio.

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