OS DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DE UM PARTIDO REVOLUCIONÁRIO
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Por Douglas Diniz – Jornalista (RSF), membro da Direção da Revolução Socialista e da Liga Internacional Socialista (RS/LIS), Coordenador do Portal Info.Revolução
A construção de um partido revolucionário nunca foi um caminho linear. Ao contrário, é um processo marcado por avanços, retrocessos, erros acumulados e pela necessidade permanente de revisão crítica. O desafio central segue sendo transformar intenção política em força organizada na classe trabalhadora.
Um dos principais limites enfrentados por setores revolucionários é o erro metodológico da autoconstrução — a ideia de que é possível construir uma organização a partir de si mesma, sem enraizamento real nas massas e sem diálogo profundo com a realidade concreta. Esse caminho frequentemente desemboca na autoproclamação, onde pequenos agrupamentos se colocam como direção política sem terem conquistado, na prática, essa legitimidade.
Associado a isso, surge um outro desvio perigoso: o messianismo político. A crença de que “somos revolucionários” e, portanto, estamos automaticamente corretos, ou ainda a postura de vitimização permanente — como se os limites e derrotas fossem sempre responsabilidade exclusiva de fatores externos. Essa visão impede a autocrítica e bloqueia o aprendizado necessário para avançar.
A realidade exige o oposto: consciência dos erros, abandono de fórmulas prontas e disposição para rever métodos, práticas e concepções.
A metáfora do xadrez ajuda a iluminar essa questão. Há momentos em que o jogador encara o tabuleiro com a intensidade de quem luta para sobreviver, respondendo à posição concreta com firmeza, sem ilusões. Em outros, compreende que o jogo é feito de variantes, que exigem cálculo, adaptação e visão estratégica de longo prazo. Não basta mover peças por impulso — é preciso entender a posição, prever cenários e construir caminhos possíveis.
Na política revolucionária, isso significa: não agir apenas por convicção subjetiva, não repetir fórmulas prontas, não confundir desejo com realidade.
Hoje, os desafios são ainda maiores. Vivemos um cenário de despolitização, fragmentação da classe trabalhadora e avanço da precarização, que dificulta a organização coletiva. Soma-se a isso o desvio sindicalista, que limita a atuação à luta econômica imediata, sem conexão com um projeto político mais amplo.
Ao mesmo tempo, é necessário enfrentar, de forma consciente e firme, posições que, mesmo dentro da classe trabalhadora e de suas organizações, acabam contribuindo para o fortalecimento de projetos da chamada “esquerda oficial”. São projetos que subordinam a luta social ao calendário eleitoral, priorizam a disputa institucional e a ocupação de cargos parlamentares como estratégia central, e acabam reproduzindo uma lógica de manutenção de uma casta política vinculada às estruturas do Estado capitalista.
Nesses casos, a política se reduz à gestão do possível dentro dos limites do sistema, enquanto o discurso sobre transformações mais profundas aparece de forma episódica, muitas vezes restrito a momentos simbólicos. O desafio, portanto, não é ignorar essa realidade, mas disputar politicamente a consciência da classe, demonstrando, na prática, os limites dessas estratégias.
Ao mesmo tempo, assistimos ao avanço global da ultra direita, que se alimenta justamente da crise de representação e da fragilidade das alternativas.
Diante desse cenário, a tarefa central não é o isolamento, mas o reagrupamento político. E isso passa, antes de tudo, por um princípio fundamental: a construção de um partido revolucionário exige o debate franco de ideias.
Isso significa: valorizar os pontos de unidade, e não apenas as divergências; criar espaços reais de discussão política; superar o sectarismo e a autossuficiência; construir confiança entre organizações e militantes.
No xadrez, não se vence apenas atacando. É preciso coordenar peças, preparar posições, recuar quando necessário e avançar com precisão. Da mesma forma, a política revolucionária exige paciência estratégica e construção coletiva.
A aproximação entre setores da esquerda revolucionária exige também a capacidade de estabelecer acordos políticos táticos e estratégicos, que permitam intervir na realidade concreta, ganhar influência e acumular forças.
Esses acordos não significam diluição programática, mas sim maturidade política para compreender que a construção de um projeto de massas não se faz de forma isolada.
O desafio colocado é contribuir para o reagrupamento de forças revolucionárias, tanto no plano nacional quanto internacional, com o objetivo de construir um projeto capaz de responder à crise histórica do sistema.
Como afirmava Trotsky em seu Programa de Transição, o problema central segue sendo a crise de direção política revolucionária da classe trabalhadora e dos setores explorados.
Superar essa crise exige: enraizamento real nas lutas, elaboração política consistente, unidade na ação, disposição para o debate e superação do messianismo e da autoproclamação
No fundo, trata-se de reconhecer que não estamos jogando sozinhos. O tabuleiro é real, complexo e dinâmico — e exige mais do que certezas: exige estratégia, humildade política e capacidade de construção coletiva.
Sem unidade, não se pode avançar de forma firme e com força. Sem política, não há partido revolucionário.
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