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Orgulho marginal: entre o leque e a foice

  • há 21 horas
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 5 horas

Por Rafael Pereira, da direção nacional da Revolução Socialista/LIS.


A ascensão da ofensiva anti-direitos LGBT em diversos países e o recrudescimento da moral conservadora não podem ser compreendidos fora da lógica que estruturou o mundo moderno e sua contemporânea polarização política. O controle dos corpos dissidentes racializados, femininos, trans e periféricos é parte da mesma engrenagem que gerencia e sustenta a exploração capitalista.


No Brasil, essa ofensiva se manifesta tanto na violência cotidiana quanto na tentativa de higienizar o movimento LGBTQIAPN+, transformando-o em espetáculo de consumo e representatividade vazia.



As paradas LGBT do país, que tem seu pontapé inicial dado em São Paulo, enfrentam hoje o resultado de sucessivo afrouxamento de critérios fundamentais: foram feitas ao longo do tempo alianças com nossos inimigos de classe, principalmente em troca de patrocínio.


A partir destes eventos, enveredando por aspectos objetivos e subjetivos, pode-se fazer muita especulações, mas também refletir:

Quais as tarefas das e dos revolucionários para disputar a direção e politização dos movimentos por igualdade de gênero e liberdade sexual?

Colonialismo, imperialismo e controle dos corpos


Em 2026, 65 países ainda criminalizam relações homoafetivas, concentrados principalmente na África, Ásia e Oriente Médio, sendo que alguns aplicam penas severas, incluindo prisão e até pena de morte. Fora dessas regiões, apenas Guiana (América do Sul) e alguns territórios insulares do Caribe mantêm leis semelhantes.


Paralelamente, têm vindo à tona nos EUA, China e países como Gana, Senegal e Burkina Faso, legislações explicitamente anti-LGBTs, herdeiras diretas dos códigos coloniais europeus ou de lógicas anti-ocidente e que se multiplicam em uma onda global e coordenada. Em locais da Europa e América, têm se popularizado, “anti-marchas do orgulho”, geralmente impulsionadas por grupos conservadores reacionários, articulados em torno do discurso de “defesa da família tradicional” e da “liberdade religiosa”, funcionando como braço cultural da ofensiva contra direitos sexuais e reprodutivos.


A tabela abaixo, exemplifica leis vigentes no continente africano:

Região

Países

Pena máxima

Observações

África Ocidental

Senegal, Gana, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Mauritânia, Guiné, Guiné Equatorial, Serra Leoa, Libéria

De 3 a 10 anos de prisão; em Mauritânia, pena de morte

Senegal e Gana aprovaram novas leis em 2025–2026 ampliando penas e criminalizando “promoção” da homossexualidade.

África Central

Camarões, Chade, Burundi, República Democrática do Congo

De 2 a 5 anos de prisão

Camarões e Chade mantêm forte repressão policial e censura cultural.

África Oriental

Uganda, Quênia, Etiópia, Eritreia, Somália, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia

De 5 anos à pena de morte

Uganda aplica pena de morte para “homossexualidade agravada” desde 2023.

África Austral

Zâmbia, Zimbábue, Malawi, Eswatini

De 5 a 14 anos de prisão

Em Eswatini, a lei é vaga, mas usada para perseguição.

África Setentrional

Argélia, Egito, Tunísia, Líbia, Marrocos, Comores

De 2 a 5 anos de prisão e multas


Desde 2021, a China mantém uma diretriz estatal que proíbe a exibição pública de “homens afeminados” e outras “estéticas anormais” na televisão, cinema e plataformas digitais, como parte de uma política de promoção da masculinidade patriótica e disciplinada. Além disso, o Código Civil chinês em vigor, define o casamento exclusivamente como a união entre “um homem e uma mulher”, sendo que nenhuma província ou autoridade local tem poder para alterar essa definição.


A estagnação da conquista de direitos caminha lado a lado com retrocessos em que a colonialidade do ser, do saber e do poder, não apenas impõe fronteiras geográficas, mas também morais: define o que é “civilizado”, “autoridade”, “aceitável” e “normal”.


Lenin, em O imperialismo, fase superior do capitalismo, demonstra que o colonialismo é a expressão política do imperialismo - a expansão do capital monopolista que subjuga povos e culturas para garantir a acumulação. Essa dominação não se limita à economia: ela se estende à cultura e à moral, disciplinando corpos e subjetividades.


Essa herança, se traduz em solo tupiniquim na criminalização simbólica das identidades dissidentes e na perpetuação do racismo estrutural, que reserva  a marginalidade, espoliação e exclusão - não apenas, mas em especial - às pessoas negras, periféricas e trans.


A luta contra a LGBTfobia é, portanto, inseparável das lutas feminista, antirracista e anticapitalista e revolucionária. Não há emancipação sexual sem emancipação social.


A despolitização do Orgulho e o pink money


As Marchas do Orgulho, nascidas como atos de insubmissão, salvo pouca exceções, foram convertidas por suas direções em vitrines corporativas. Nelas, o capitalismo em sua habilidade de absorver contradições, transformou a revolta em marketing.


Mas uma característica do movimento é inegável: a marginalidade não tem garantido o básico para sujeitos cuir (cuir é uma adaptação latino-americana que busca autonomizar categorias próprias, considerando contextos históricos, raciais, territoriais e de classe, e questionando a hegemonia eurocêntrica do queer).


Lideranças e mandatos LGBT são colocados sob uma lupa muito mais criteriosa, em que qualquer desvio é razão para escracho ou invalidação. Esta inquisição não ocorre somente pela polícia moral ultraconservadora, mas também dentro do campo das esquerdas, da social-democracia à esquerda radical.


Por que isso acontece? Não são as pessoas LGBTQIAPN+ também classe trabalhadora?


Estamos garantindo dentro de nossas organizações empregabilidade, moradia, saúde e alimentação das pessoas gays, lésbicas, trans e travestis, intersexo, assexuais, pansexuais e não-binárias ou estas são úteis apenas para escrever sobre “Diversidade” e serem figuras públicas nos pleitos porque o “identitarismo” atrai a juventude?


O chamado pink money é apresentado como arma econômica e política, mas dentro da lógica do consumo serve muito mais à pacificação social: substitui o enfrentamento pela estética, o protesto pela selfie.


O que não é diferente do que também faz o money (sem cor mesmo) dentro do sistema: apostar na docilização da comunidade e aliados é muito funcional, porque corpos insurgentes tornam-se consumidores e o orgulho, mercadoria.


Traição e higienização da dissidência


A branquitude e a pequeno-burguesia cisgênera, é frequentemente elevada à condição de norma e ideal, já que esta é tida como não-raça, juventude padrão e “representante” da diversidade higienizada.


Não ironicamente, vem muitas vezes encarnada aí a traição interna do movimento, como por exemplo a do movimento LGB, vertente separatista com raízes europeias que tenta se consolidar com apoio midiático enquanto uma reação interna conservadora, concentrada apenas em lésbicas, gays e bissexuais, separando a liberdade sexual da identidade de gênero para excluir pessoas trans, não-binárias e outras dissidências, na lógica de dividir para conquistar.


Precisamos ser categóricos na denúncia:

Toda (L)ésbica com discurso biologizante é uma traidora.

Todo (G)ay transfóbico ou misógino é um traidor.

Todo (B)issexual racista é um traidor.


A ascensão deste movimento pode facilmente ser endossada por aliados acríticos, tornando-a palatável ao centro do capital e reforçando a exclusão das travestis, das bichas pretas e afeminadas que sustentaram e catalisaram por muito tempo a luta nas ruas.


“A rua convoca, a urna confirma” ou “Orgulho hoje, voto amanhã!” - o limite da institucionalidade

  

As Marchas do Orgulho são organizadas inicial e internacionalmente em memória à Rebelião de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969 - uma época de maior repressão violenta em meio sucedida pela epidemia da AIDS que estigmatizou relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo - hoje são instrumentalizadas por partidos, ONGs e também pelo imperialismo: vide as paradas no estado genocida de israel, nos Estados Unidos e as políticas anti-diversidade na Rússia.


Os slogans usados em ano eleitoral no Brasil sintetizam a captura da revolta pela política liberal. A institucionalização da pauta LGBT, sem ruptura com o capitalismo, produz apenas inclusão simbólica, em que a representatividade, quando não acompanhada de transformação estrutural, é nada mais que uma vitrine vazia. Estamos dentro da democracia burguesa elegendo nossos algozes de amanhã e, as primeiras mãos a serem soltas são as cuir.


A violência das ruas escuras em que cuir-vivências sobrevivem, migra para o espaço virtual, onde algoritmos e preconceituosos muito influentes reproduzem exclusões e censuras. Alertamos que o ativismo digital, embora importante, é frequentemente reduzido à performance: a “instagramização” da luta LGBTI+ cria a ilusão de engajamento, mas neutraliza o potencial revolucionário das dissidências e a estética da diversidade serve para ocultar a persistência da desigualdade material.


Xica Manicongo, Timbira, Marielle Franco, Erika Hilton, Guilherme Cortez, Fábio Félix, Rick Azevedo, Duda Salabert, Eduarda Jankauskas, Margot Jung, Katú Mirim, Linn da Quebrada, Silvetty Montila, Márcia Pantera, Pabllo Vittar, Yasmim Lima, Carol Silva, Atena Gabriela, Angela Luví, Beti Clarão, Ângelo Pibo, Tiago Torres, Rafael Pereira.

Quão distantes enquanto comunidade estamos de mais uma morte violenta e subnotificada?

Quão distantes estamos de novas operações tarântulas, de triângulos rosas, de cadastros de “desviados sexuais” sob ditaduras militares?

Quantos fins de mês convivendo com insegurança alimentar, desemprego e contas a pagar são necessários para nos adoecer?

Quão mais às margens e solitários precisamos estar para não acabarmos em situação de rua ou sermos suicidados?


O ponto crítico é que a pena do tribunal político que condena militantes que escolhe(ra)m por sua sobrevivência a uma luta que os expõe é pesada, injusta e não nos pertence, assim como a responsabilidade pela extinção do racismo não pertence ao movimento afrobrasileiro e indígena; do machismo, às mulheres e transfeminilidades.


O limite da institucionalidade sê dá enquanto estas significarem insegurança, enquanto segregarem e incentivarem a despolitização das pautas e garantia de direitos.


Esta é mais uma contradição, como tantas outras às quais enquanto sociedade, fechamos os olhos para não lidar, mas que a urgência é real. É revolucionário alienar-se ou terceirizar os trabalhos de cuidado?


As trincheiras revolucionárias devem recolocar os debates de gênero e sexualidade na ordem do dia, para ser incorporada e assimilada por todos não como apêndice, mas como parte da estratégia de superação da exploração.


A família tradicional e a revolução com os corpos dissidentes


Por fim, mas não menos importante, é fundamental disputarmos uma narrativa bastante espinhosa: a instituição da família tradicional, que é um dos pilares ideológicos do capitalismo, da propriedade privada e do patriarcado.


Ela não é apenas uma unidade afetiva, mas um mecanismo de reprodução social e econômica, responsável por garantir a continuidade da propriedade privada, da herança e da moral burguesa. Desde o século XIX, a família nuclear - heterossexual, monogâmica e hierarquizada - foi erigida como modelo universal, naturalizando papéis de gênero e subordinando mulheres e dissidências à lógica da produção e da reprodução.


Os corpos dissidentes - travestis, pessoas trans, não binárias, bichas, sapatões - representam uma afronta direta a essa estrutura, pois desafiam a norma que sustenta o poder patriarcal e capitalista. Ao reivindicarem novas formas de afeto, parentesco e cuidado, esses corpos constroem uma revolução sexual que é também social, questionando a própria base da exploração. A recusa em se conformar à família tradicional é uma recusa em reproduzir o sistema que transforma o amor em propriedade e o desejo em mercadoria.


A luta das dissidências sexuais, portanto, não é apenas pela aceitação ou pela visibilidade, mas pela destruição da família como instrumento de dominação. A revolução sexual que emerge das margens propõe novas formas de convivência e solidariedade, baseadas na liberdade e na igualdade, não na submissão e na herança.


Concluindo:

  • A luta contra as opressões é indissociável da luta contra a exploração.

  • Derrubar o patriarcado é também derrubar o capital.

  • O orgulho que se vende é o mesmo que se esvazia.

  • Orgulho é o que se organiza, o que enfrenta, o que se recusa a ser mercadoria.

  • Não haverá revolução sem travestis, sem bichas pretas, sem corpos dissidentes.

  • A revolução será também cuir, feminina, negra, indígena, trans e periférica - ou não será.

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