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A disputa pelo fundo eleitoral expõe a crise de um projeto que abandonou as bases do PSOL

  • há 9 horas
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Imagem: Reprodução
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A denúncia pública feita pela Deputada Federal Erika Hilton sobre a distribuição dos recursos do fundo eleitoral abriu um debate que, para muitos militantes do PSOL, parece novo, mas não é


Não se trata apenas de uma divergência sobre critérios financeiros. É a expressão de uma forma de funcionamento partidário construída ao longo de anos, em que decisões estratégicas, recursos e rumos políticos passaram a ser controlados por aparatos, cada vez mais distantes da militância que fundou e construiu o PSOL.


Não há dúvidas de que a direção hoje controlada pela Primavera Socialista, responsável pela presidência do partido e por sua direção cotidiana, exerce um manejo profundamente antidemocrático das finanças e das principais decisões políticas. A concentração do poder nas mãos de poucos dirigentes e a ausência de mecanismos efetivos de controle pela base são parte da realidade vivida no partido.


Mas seria um grave erro político transformar esse debate numa disputa entre "democratas" e "burocratas". Erika Hilton pertence à Revolução Solidária, corrente dirigida por Guilherme Boulos, uma das principais responsáveis pela atual adaptação do PSOL ao governo Lula-Alckmin e à lógica do oficialismo petista. Essa mesma corrente participou, desde sua entrada no PSOL, do campo majoritário que empurrou o partido à situação atual. Erika não pode, portanto, apresentar-se como alguém externa a um processo do qual foi protagonista.


A questão piora quando, após a denúncia, Juliano Medeiros, ex-Presidente do PSOL, responde à denúncia de Erika informando que esta receberá o maior valor entre as candidaturas: R$ 2,3 milhões. Este valor, expõe ainda mais o absurdo num Brasil onde a classe trabalhadora não consegue se sustentar com o próprio salário, entrando no caminho do endividamento e dos juros exorbitantes. Mostra o quanto a roda que gira o PSOL é a sobrevivência parlamentar. Não somente pela “necessidade” da representação parlamentar num momento de ataques da extrema direita nas duas casas, mas também pela luta para não perder as condições materiais e privilégios do parlamento. Obviamente que este problema se extende ao conjunto do partido.


O problema não começou agora, nem se resume ao fundo eleitoral


Há muito tempo denunciamos que o projeto hoje majoritário no PSOL é um projeto liquidacionista. Um projeto que abandona progressivamente a construção de um partido militante, democrático e de independência de classe para convertê-lo em uma máquina eleitoral voltada prioritariamente para a disputa institucional.


Quando um partido deixa de organizar sua militância para organizar seus mandatos, quando os debates programáticos são substituídos por negociações entre correntes, quando o funcionamento cotidiano gira em torno da distribuição de recursos e da composição de chapas, a consequência inevitável é que o aparato passa a ocupar o lugar da política. É precisamente isso que a atual polêmica revela.


A disputa pelo fundo eleitoral não é a causa da crise do PSOL. É um de seus sintomas mais evidentes


O abandono da independência de classe, a adaptação crescente ao governo federal, a política permanente de alianças eleitorais sem critérios programáticos, a substituição da participação nos processos de luta de classes pela atuação parlamentar e o enfraquecimento da democracia interna fazem parte de um mesmo processo. Não são problemas separados.


Por isso, limitar o debate à distribuição dos recursos significa debater apenas a superfície da questão. O problema de fundo é outro: o PSOL foi sendo transformado, paulatinamente, em um instrumento de aparatos eleitorais que disputam espaços institucionais enquanto abandonam, de maneira oportunista, um programa anticapitalista consequente e subordinam a estratégia do partido às necessidades das eleições seguintes.


Essa não foi a razão pela qual milhares de militantes romperam com o PT para fundar o PSOL


O partido nasceu para representar uma alternativa socialista e de independência de classe diante da traição promovida pelos governos petistas. Nasceu para ser um instrumento democrático de organização das lutas, da juventude, das mulheres, do movimento negro, dos povos indígenas, dos trabalhadores do campo e da cidade. Não para reproduzir, sob outra sigla, os mesmos métodos burocráticos e eleitoralistas que criticávamos.


Como Revolução Socialista, fazemos essa crítica há muitos anos. Nenhum dos setores que hoje protagonizam esse conflito pode apresentar-se como alternativa enquanto mantiver o mesmo projeto de adaptação institucional que conduziu o partido até aqui.


A saída não virá da vitória de um aparato sobre outro. Passa por recolocar nas mãos da militância as decisões políticas do partido, democratizar efetivamente seu funcionamento, garantir total transparência sobre seus recursos e recuperar um programa de independência de classe que rompa com a adaptação ao governo e ao regime político.


A atual crise pode servir para algo positivo se ajudar milhares de militantes a compreender que o problema não é apenas quem controla o fundo eleitoral, mas qual projeto político está sendo financiado por ele.


A tarefa da militância anticapitalista é defender o PSOL como instrumento de luta dos trabalhadores e dos setores oprimidos, resgatando as razões que levaram à sua fundação. Essa batalha exige enfrentar o projeto liquidacionista da direção majoritária e reconstruir um partido militante, democrático, socialista e revolucionário.

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