Novembro Negro não termina no dia 30
- Comunicação RS
- 30 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Por Emanuelle Nascimento, Rafael Pereira e Suzete Chaffin.
Novembro Negro não é apenas um mês no calendário: é território político, histórico e emocional que nos obriga a revisitar as raízes do Brasil e a encarar aquilo que a branquitude tenta transformar em silêncio. Quando falamos de Consciência Negra, não reivindicamos apenas memória; reivindicamos projeto de sociedade, como já anunciava Lélia Gonzalez, ao afirmar que a população negra é a espinha dorsal da formação cultural, política e epistêmica deste país.
É impossível falar de novembro sem lembrar que o Brasil viveu 388 anos de escravidão legal e pouco mais de 136 anos de “libertação” formal. Ou seja: a lógica que nos sequestrou, nos violentou, nos objetificou e nos desumanizou durou quase três séculos a mais que o período em que supostamente fomos reconhecidos como sujeitos. Como afirma Beatriz Nascimento, a abolição não significou liberdade: significou apenas a transferência da violência da senzala para o Estado, da chibata para a polícia, da escravização formal para a marginalização estrutural.
É inadmissível falar em “consciência humana” em novembro. Isso seria neutralizar a história. A Consciência Negra é uma ferramenta política, não moral. É um exercício de ruptura, não de conciliação. É, como defende Sueli Carneiro, a recusa de aceitar que a universalidade seja definida a partir da branquitude. Ser negro, no Brasil, sempre foi sobreviver dentro de um projeto de morte e é por isso que consciência é sobrevivência organizada.
A Revolução Socialista compreende que o Novembro Negro precisa ser analisado desde uma perspectiva ecofeminista, interseccional, anticapitalista e necessariamente ecossocialista, porque o racismo não atua sozinho. Ele é engrenagem fundamental do capitalismo brasileiro, como analisou Clóvis Moura, como aprofundou Abdias do Nascimento, como ecoa Angela Davis ao mostrar que raça, gênero e classe não podem ser separadas sem distorcer a realidade.
A violência contra a população negra não é fenômeno individual; é arquitetura social - seja nos gritantes índices de feminicídio, nas repetidas mortes pela polícia, no encarceramento em massa, no desemprego e precarização, no racismo ambiental e gentrificação, na fome ou no epistemicídio (apagamento, desvalorização ou destruição de formas de conhecimento produzidas por determinados povos ou grupos sociais). Como afirma Djamila Ribeiro, não existe desigualdade racial sem desigualdade de poder e, a necropolítica é a forma moderna de controlar populações consideradas descartáveis, como reforça Achille Mbembe.
No Brasil, essas populações têm cor: negra. Por isso nosso partido afirma sem dúvida: a luta antirracista é luta anticapitalista; a luta feminista é necessariamente ecofeminista, revolucionária e socialista; a luta contra o feminicídio é inseparável da luta contra a pobreza; a luta pela vida negra exige confrontar o Estado burguês, a mercadoria e a estrutura heteropatriarcal que organiza a morte.
Discutir o Novembro Negro, é discutir também onde os nossos corpos são autorizados a existir. Mulheres negras, sobretudo, seguem sendo o alvo preferencial da violência estrutural. A cada dia, como lembra Patricia Hill Collins, somos empurradas para posições de servidão, controle e vigilância. Mesmo quando acessamos universidades, política institucional, cultura, ciência ou espaços de poder e decisão, somos interrogadas sobre nossa legitimidade como se a branquitude precisasse nos autorizar a estar ali. Nossa resposta é política: pessoas negras não pedem licença; constroem caminhos.
Fazemos isso a partir de uma perspectiva ecofeminista, que rompe com o sistema econômico vigente - o capitalismo - porque, como argumentam Vandana Shiva e Berta Cáceres, a defesa da terra, da água, da floresta e do corpo é inseparável da luta contra a exploração. Nesse sentido, é importante pontuar que a violência dirigida aos corpos negros não decorre do fato de o capitalismo “não lucrar” com eles, mas justamente do contrário: o racismo é um elemento estruturante da própria formação capitalista. Por isso, a exploração e a opressão recaem de maneira ainda mais intensa sobre vidas negras, que historicamente têm sustentado, de forma forçada e desigual, o processo de acumulação deste sistema.
Nossas formulações se ancoram na tradição trotskista, que compreende a revolução como um processo histórico ininterrupto, internacional e dialético. Em diálogo com Marx, Trotsky e também com análises contemporâneas como as de Angela Davis e Nancy Fraser, entendemos que a superação do capitalismo não pode ser pensada como uma etapa isolada, nacional ou meramente institucional, mas como uma transformação permanente das estruturas econômicas, políticas e culturais que sustentam a dominação. A tese da revolução permanente afirma que a emancipação da classe trabalhadora só pode avançar quando articulada às lutas contra o racismo, o patriarcado e a destruição ambiental, reconhecendo que todas essas formas de opressão são dimensões interdependentes da lógica de acumulação capitalista. Assim, nossa atuação cotidiana encontra fundamento sólido em uma tradição revolucionária que, insiste no internacionalismo, na auto-organização das massas e na crítica radical às formas históricas de exploração e poder.
Por isso dizemos: novembro negro não termina no dia 30. A Consciência Negra não é evento: é prática cotidiana, é vigilância política, é construção de mundo. A luta antirracista é diária, porque o racismo também é. A luta feminista é diária, porque o feminicídio também é. A luta de classes é diária, porque a exploração também é. A luta ecológica é diária, porque o caos climático também é. A luta pela vida negra é diária, porque a necropolítica também é. A luta não se encerra quando o calendário muda. Novembro Negro é apenas o lembrete. A revolução socialista é estratégia.
REFERÊNCIAS
Autoras negras brasileiras
CARNEIRO, SUELI.
Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina. Artigo clássico (1995).
GONZALEZ, LÉLIA.
Por um feminismo afrolatino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
Amefricanidade: um conceito-chave da diáspora. Revista Tempo Brasileiro, 1988.
NASCIMENTO, BEATRIZ.
O Negro e o Futebol Brasileiro – textos reunidos.
Beatriz Nascimento: pensamentos reunidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
RIBEIRO, DJAMILA.
O que é lugar de fala? São Paulo: Sueli Carneiro/ Jandaíra, 2017.
Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Autores(as) negros(as) latino-americanos e da diáspora
COLLINS, PATRICIA HILL.
Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. Routledge, 2000.
DAVIS, ANGELA.
Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.
MBEMBE, ACHILLE.
Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2019.
HOOKS, BELL.
E eu não sou uma mulher? São Paulo: Rosa dos Tempos, 2019.
Ensinando a transgredir. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
SHIVA, VANDANA.
Staying Alive: Women, Ecology and Development. Zed Books, 1988. (Referência do ecofeminismo.)
Intelectuais negros brasileiros citados no texto
MOURA, CLÓVIS.
Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1994.
Rebeliões da senzala. São Paulo: Conquista, 1959.
NASCIMENTO, ABDIAS DO.
O genocídio do negro brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1978.
O quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980.
Intelectuais ecofeministas latino-americanas
BERTA CÁCERES (citada simbolicamente como referência política).
Discursos reunidos e entrevistas diversas (COPINH – Honduras).
Referência: The Life and Death of Berta Cáceres – Nina Lakhani (2020).
Teóricos complementares
KILOMBA, GRADA-Memórias da Plantação (sobre racismo e trauma).
CAROLINA MARIA DE JESUS-Quarto de Despejo (sobre desigualdades estruturais).
LOURDES BANDEIRA-estudos sobre feminicídio e violência de gênero.
JOICE BERTH-O que é empoderamento?
VILMA REIS-Discursos sobre movimento negro e segurança pública.









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