top of page

Notícias da Bolívia: COB e governo de Paz assinam acordo

  • há 16 minutos
  • 5 min de leitura

Por Manuel Iraola, jornalista e dirigente da RS/LIS*


A situação tornou-se cada vez mais confusa nas últimas duas semanas, com declarações e notícias contraditórias, especialmente quando a COB (Central Operária Boliviana) e outros setores começaram a falar em negociações. Diante da incerteza da classe trabalhadora, dos camponeses e dos setores populares, as lutas começaram a enfraquecer. Mesmo assim, ontem completaram-se 50 dias de greve geral e 45 dias de bloqueios, embora alguns já estejam mais desgastados e parciais.



O governo de Rodrigo Paz ficou semiparalisado durante todo esse período e não conseguiu aplicar nenhuma medida repressiva contundente. Quando tentaram agir em San Julián, uma cidade de 45 mil habitantes no interior de Santa Cruz, a polícia foi derrotada e fugiu, momento em que os camponeses destruíram e incendiaram o posto policial. É evidente que, em todo o país, existe um poder paralelo nas avenidas, rodovias, fábricas e em parte dos serviços públicos.


A política da direita tradicional e da extrema direita, de exigir do governo a militarização do país, pois essa burguesia concentrada na região de Santa Cruz, mesmo contando com grupos paramilitares, não conseguiu agir de forma contundente.


A burguesia como um todo não encontrava uma saída, pois a principal reivindicação do povo foi a renúncia do presidente; portanto, o temor da burguesia era que uma repressão indiscriminada pudesse provocar o início de uma guerra civil. Ou seja, o governo não faz o que quer, faz o que pode.



A COB, que, pressionada pelas bases, vinha desempenhando um papel preponderante e representando o conjunto da classe trabalhadora e seus aliados, começou a recuar e a mudar de objetivo. Assembleias massivas, chamadas de “Cabildos Abiertos”, votaram pelo “Fora Rodrigo Paz” e por não negociar com o governo. A Central se recusou a aceitar o que setores de esquerda, compostos por milhares de ativistas de base, exigiam: que a COB assumisse o governo, que tomasse o poder político do país em suas mãos.


Os camponeses, especialmente os do Tupac Katari, assinaram um “Pacto de Não Traição” com a COB para ir até o fim. Hoje, estão indignados porque a direção da Central descumpriu o pacto e, por isso, não estão participando das negociações. Na primeira tentativa de negociação, os dirigentes da COB foram apedrejados.


Uma parte da população, como os sindicatos de vendedores ambulantes, artesãos, trabalhadores do transporte urbano e do comércio, quer que a situação se normalize, pois, sem movimento, não têm como se sustentar.



A escassez de produtos e insumos é algo raramente visto; os postos de gasolina enfrentam filas literalmente quilométricas, faltam carnes, verduras, medicamentos, e até mesmo o cardápio dos restaurantes foi reduzido; muitos comércios estão fechados e o aumento dos preços dobrou ou triplicou.


Sabemos também que dirigentes de diversos setores começaram a negociar separadamente, enfraquecendo a luta geral, inclusive os dirigentes das principais minas estatais, de Colquiri e Huanuni, vanguarda da classe trabalhadora desde a década de 1950.


No dia 18, após idas e vindas, foram iniciadas as negociações entre o governo e os grevistas. Segundo a imprensa, participaram cerca de 100 líderes da COB, da FEJUVE (moradores de El Alto) e de outras organizações. A reunião foi suspensa e ficou em um impasse. No dia 19, houve acusações públicas do governo, de deputados e de partidos políticos contra os manifestantes, além de mais exigências por parte dos dirigentes mineiros e camponeses. Houve um impasse, não havia reunião agendada, mas no dia 20 a negociação continuou no final da tarde.


Finalmente, foi fechado um “Acordo” e estabelecida uma espécie de negociação permanente. As declarações são muito genéricas e, até o momento, não foram apresentados documentos escritos. A declaração mais firme é a do governo e de seus ministros, garantindo que liberariam as rodovias em um prazo de 48 horas. De fato, tropas do exército e da polícia estão se posicionando nas principais rodovias do país por onde circulam as mercadorias, incluindo El Alto e, de forma mais lenta, nos bloqueios dos camponeses. O governo estaria “revisando” os processos dos sindicalistas detidos e acusados, mas não prometeu a libertação de todos; declarou que a militarização das rodovias não teria como objetivo reprimir, mas apenas desobstruí-las, aparentemente apostando em convencer e intimidar, aproveitando o recuo da COB.



A Central, por sua vez, pediu o fim dos protestos e afirmou que o governo cumprirá um acordo de 29 pontos, entre os quais a “promessa” de não privatização. Não mencionou quais reivindicações seriam atendidas nem se referiu aos dias não trabalhados pelos grevistas. Por outro lado, a organização Tupac Katari declarou que manteria os 47 bloqueios nas rodovias.

Na tarde de hoje, os jornais anunciam que: “A poucas horas da aplicação da Medida de Exceção, Cochabamba, La Paz e El Alto mostram os primeiros sinais de recuperação”. O ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, afirmou que “será gradual e terá duração de 90 dias. Não há toque de recolher”.


A nosso ver, parece estar se iniciando uma “normalização” da situação que afetará de forma desigual as diferentes cidades e setores sociais. No curto prazo, descobriremos quais são essas promessas do governo e se as cumprirá. A indignação popular poderá trazer, no curto prazo, novas lutas contra o governo. Por outro lado, a frustração com os dirigentes que traíram a luta poderá gerar um novo processo de articulação de direções de classe e antiburocráticas que busquem novos caminhos para se reorganizar.


Em resumo, podemos dizer que, nessa fantástica revolta revolucionária, a direção do movimento desperdiçou, mais uma vez, uma oportunidade daquelas que surgem a cada 10 ou 20 anos; estando às portas da Casa do Governo, com um poder operário e popular disposto a tudo, inclusive a tomar o poder, recuou para fazer um pacto. Recusou-se a assumir o poder por meio da ação direta das massas e preferiu os mecanismos das eleições burguesas dominadas pelos ricos e poderosos.


A desmobilização por parte da cúpula da COB, dirigida por Mario Argollo, foi trágica para os lutadores e grevistas. Mesmo que se tratasse apenas de um movimento reivindicativo, a maior traição dessa direção não é apenas a de recuar, mas a de não consultar as bases e a de se render, em nome da classe trabalhadora, à conciliação de classes, subordinando-se ao próprio governo de Paz. Argollo usou frases impensáveis no mês passado, tais como: “pacificar o país”… “estamos fazendo isso para que não seja derramado sangue”… “participemos do diálogo, não permitamos que nosso país sofra mais”… “não fiquemos como o vilão do filme”. E respondeu às críticas do povo: “Eu não sou um traidor, devemos cuidar das bases”…


O último capítulo dessa longa batalha será definido pela luta de classes, pela disposição desse incansável povo boliviano de continuar a luta por suas reivindicações.


Continuamos declarando e demonstrando, inclusive aqui na Bolívia, nosso apoio incondicional à classe trabalhadora boliviana, à sua luta para gestar uma nova direção para a COB, derrubar todos os dirigentes sindicais, camponeses ou populares que abandonaram ou traíram abertamente esse processo revolucionário, e construir uma nova direção sindical e política à altura desse povo aguerrido.


  • Pelo fim do Estado de Exceção, da repressão e da ocupação militar!

  • Liberdade imediata para todos os lutadores e lutadoras presos!

  • Por um Cabildo Aberto para definir os próximos passos após o absurdo Acordo!

  • Exigir que a cúpula da COB preste contas pela falta de consulta às bases e pelo descumprimento do “Pacto de Não Traição”!

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2025  Revolução Socialista - Brasil. Todos direitos reservados.

Desenvolvido por: Arte Net

bottom of page