Autismo como questão política
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Por Emely Brandt, estudante da UFPR e militante da Revolução Socialista.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por modos atípicos de comunicação, interação social e processamento sensorial e cognitivo. Sua manifestação é heterogênea, variando em intensidade e expressão conforme o indivíduo e seu contexto. No Brasil, segundo dados inéditos do Censo Demográfico 2022 divulgados pelo IBGE em 2025, 2,4 milhões de pessoas - 1,2% da população - têm diagnóstico de autismo, sendo 1,4 milhão de homens e 1 milhão de mulheres. Esses números, embora expressivos, representam ainda uma subnotificação, especialmente entre grupos historicamente marginalizados.

Compreender o autismo no capitalismo exige superar a abordagem biomédica restrita que o trata como patologia individual, para situá-lo como questão estrutural. O que está em jogo não é a suposta incapacidade de pessoas autistas de se adaptarem ao mundo, mas sim a violência do sistema que exige constante supressão da própria identidade como condição para acesso a direitos mínimos.
Alienação e produtividade
A teoria marxista da alienação ilumina a experiência autista no capitalismo. Marx descreveu como o trabalhador se torna estranho ao produto de seu trabalho, ao processo produtivo, aos outros trabalhadores e a si mesmo. Para a pessoa autista, essa alienação é duplicada: não apenas sua força de trabalho é expropriada, mas sua própria subjetividade - seu modo de processar o mundo, de se mover, de sentir - é sistematicamente suprimida em nome da produtividade.
Pessoas autistas são avaliadas por sua capacidade de parecerem não autistas, de simularem um funcionamento neurotípico que lhes é custoso e, frequentemente, doloroso. O conceito de camuflagem social designa precisamente esse esforço: suprimir estereotipias, forçar contato visual, imitar expressões e entonações, evitar tópicos de interesse para não parecer "estranho". Trata-se de um trabalho emocional invisível, compulsório e exaustivo.
A pesquisa evidencia as graves consequências desse processo. Estudo publicado na revista Molecular Autism em 2023, com metanálise de dados internacionais, confirmou que autistas sem deficiência intelectual associada apresentam risco significativamente elevado de ideação e tentativa de suicídio, tendo a camuflagem social como um dos principais preditores. Dados da Autism Research indicam que a incidência de suicídio entre autistas é até dez vezes maior que na população geral.
A lógica capitalista estabelece uma hierarquia do valor humano baseada na produtividade. Aqueles que correspondem ao padrão do "trabalhador eficiente" são explorados; aqueles que não correspondem - por deficiência, adoecimento ou neurodivergência - são relegados à condição de "população excedente", tratados como fardos sociais. No Brasil, estima-se que 85% das pessoas autistas estejam desempregadas. Os 15% que acessam o mercado de trabalho o fazem, majoritariamente, mediante esforço contínuo de mascaramento, frequentemente em posições precarizadas e incompatíveis com sua formação.
O custo do diagnóstico e a mercantilização do cuidado
O capitalismo mercantiliza o acesso ao cuidado. A Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA (Lei 12.764/2012) e a Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015) existem formalmente. Na prática, o Estado burguês, refém dos interesses do capital, oferece respostas insuficientes e seletivas.
O sistema público de saúde dispõe de apenas 17,7 mil vagas para terapias gratuitas a autistas em todo o país, enquanto nascem aproximadamente 60 mil crianças autistas por ano, segundo estimativas internacionais. O déficit anual ultrapassa 40 mil vagas. Há fila média de 27 pessoas por serviço público especializado. O resultado é que o tratamento se torna privilégio de quem pode pagar planos de saúde que custeiam mensalidades superiores a R$ 13 mil, frequentemente mediante ações judiciais.
A interseção racial e a exclusão
O racismo estrutura a sociedade brasileira e opera também no campo da neurodiversidade, produzindo subdiagnóstico, precarização e invisibilidade específicas para pessoas negras autistas.
Dados do Censo 2022 indicam que população com deficiência no Brasil é majoritariamente negra - 56% (6,4 milhões de pardos e 1,8 milhão de negros), contra 42% de brancos. Entre pessoas autistas, o percentual de diagnóstico em pretos e pardos é de 1,1% em cada grupo, ligeiramente inferior ao de brancos (1,3%). Essa diferença evidencia subnotificação de pessoas negras, que enfrentam barreiras adicionais para acessar diagnóstico e cuidado.
O diagnóstico de autismo, quando acessado, ocorre mais tardiamente e com mais entraves para crianças negras. Especialistas apontam que os critérios diagnósticos e os instrumentos de triagem foram historicamente desenvolvidos com base em populações brancas e masculinas, produzindo um viés racial e de gênero que traz invisibilidade à expressões não hegemônicas do espectro. A raça, portanto, é determinante estrutural do acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à sobrevivência digna.
Gênero e diagnóstico tardio
A questão de gênero articula-se à racial para produzir opressões específicas. Durante décadas, a literatura médica descreveu o autismo como condição predominantemente masculina, na proporção de quatro meninos para cada menina. Essa "verdade" científica, hoje desmontada, era na verdade o reflexo de um viés androcêntrico que tomava a manifestação masculina como padrão universal e desconsiderava as expressões femininas do espectro.
Meninas e mulheres autistas desenvolvem precocemente estratégias de camuflagem social mais sofisticadas, impulsionadas pela socialização de gênero que exige maior adequação comportamental, silêncio, docilidade e habilidade interpessoal. Seus interesses restritos - quando coincidem com o socialmente aceito para meninas - são lidos como "curiosidade" ou "dedicação"; suas dificuldades sociais são atribuídas à "timidez" ou “frescura”.
As consequências são severas. O diagnóstico tardio - frequentemente obtido apenas na vida adulta, após o diagnóstico de um filho - chega depois de décadas de sofrimento silencioso, de terapias inadequadas para transtornos mal diagnosticados (como transtorno de personalidade borderline, TDAH ou transtornos de ansiedade generalizada), de burnout pelo esforço contínuo de mascaramento. Chega, muitas vezes, quando a depressão já se instalou e a ideação suicida já se fez presente.
O Brasil tem hoje 1 milhão de mulheres autistas diagnosticadas - número que os pesquisadores consideram subestimado.
O paradigma da neurodiversidade contra a patologização
Diante desse quadro, impõe-se uma mudança radical de perspectiva. O movimento da neurodiversidade, protagonizado por pessoas autistas desde os anos 1990, propõe o que Nick Walker denominou paradigma da neurodiversidade em contraposição ao paradigma da patologia.
O paradigma da patologia parte da premissa de que existe um único modo "normal" e "correto" de funcionamento cerebral, sendo qualquer desvio um transtorno a ser tratado, corrigido ou, idealmente, eliminado. Nessa visão, o autista deve ser submetido a intervenções que o tornem o mais próximo possível do neurotípico - daí a ênfase histórica em terapias comportamentais que visam suprimir estereotipias e treinar habilidades sociais por imitação. O paradigma da neurodiversidade, ao contrário, compreende que a variação neurológica é parte natural e saudável da diversidade humana, análoga à diversidade étnica, racial ou de gênero. Não há um cérebro "correto"; há diferentes modos de perceber, processar e interagir com o mundo, cada qual com suas potencialidades e vulnerabilidades.
Essa virada paradigmática tem implicações políticas profundas. Se o problema não é o autismo, mas o capacitismo estrutural, a solução não é adaptar o autista ao sistema - é transformar o sistema. Não se trata de treinar pessoas para parecerem não autistas, mas de criar ambientes, instituições e relações que acolham a neurodiversidade sem exigir supressão da identidade.
Uma perspectiva socialista comprometida com a emancipação da classe trabalhadora deve necessariamente incorporar a luta antirracista, feminista e anticapacitista. No que tange ao autismo, isso significa romper definitivamente com a ideologia da adaptação forçada.
A exigência de que autistas se comportem como neurotípicos é violência. O sofrimento documentado pelas pesquisas não é consequência inevitável do autismo, é resultado direto da opressão em suas múltiplas interseções.
Nesse sentido, propomos um programa de transição orientado pelos seguintes eixos, que não visam apenas "incluir" autistas no sistema vigente, mas sim transformar as bases materiais e simbólicas que produzem sua exclusão:
A construção de ambientes que não exijam mascaramento. No trabalho, na escola, nos espaços públicos, o princípio deve ser a acessibilidade cognitiva e sensorial universal: iluminação ajustável, redução de ruídos, previsibilidade comunicacional, direito a pausas, aceitação de estereotipias e estímulos atípicos.
O capitalismo, ao valorizar produtividade e eficiência, pode invisibilizar necessidades específicas de pessoas autistas, reforçando barreiras sociais e econômicas.
O direito ao diagnóstico sem barreiras de raça, gênero ou classe. Isso implica investimento maciço na formação de profissionais da rede pública para identificação do autismo em suas múltiplas expressões - femininas, negras, adultas - e na criação de centros públicos interdisciplinares de diagnóstico e suporte. O diagnóstico deve ser um instrumento para a adaptação da vida pessoal do mesmo e garantia de suporte médico para uma vida independente.
A garantia de trabalho e renda dissociada da produtividade forçada. A redução da jornada de trabalho sem redução salarial para toda a classe trabalhadora beneficia especialmente pessoas neurodivergentes, para quem a jornada padrão é especialmente exaustiva.
As reivindicações apresentadas não são definitivas. Elas apontam, contudo, que a libertação da população autista é incompatível com a manutenção do sistema capitalista. Este, que ao priorizar o lucro, mercantiliza o cuidado, exclui quem não se encaixa em seu padrão, patologiza a diferença e a transforma em desvantagem competitiva e estrutura desigualdades por raça, gênero e diversidade do neurodesenvolvimento - esse sistema não pode ser, de forma alguma, reformado; precisa ser superado.



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